De Nintendo Wii à realidade virtual: os bastidores e o futuro do PLAYNEFRON
Patrick Abdoral explica os desafios para implantar jogos na fisioterapia hospitalar, o papel da equipe, as premiações e os planos de expansão.

Fundadora & Diretora Editorial

Uma ideia pode surgir da paixão por videogames, mas transformá-la em uma intervenção dentro de um hospital público exige muito mais do que um console e alguns controles. Para o fisioterapeuta Patrick Roberto Gomes Abdoral, idealizador do PLAYNEFRON, o caminho envolveu formação específica, diálogo com diferentes serviços e a construção de critérios de segurança. Em entrevista exclusiva ao PatchNexo, ele contou como a iniciativa saiu do papel e por que seu próximo objetivo é compartilhar a experiência com outros profissionais.
O projeto foi desenvolvido na Fundação Pública Estadual Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, em Belém (PA), para integrar jogos e atividades lúdicas à assistência fisioterapêutica de pessoas em hemodiálise. Patrick enfatiza que não é uma proposta de entretenimento desconectada do tratamento: as atividades são selecionadas e adaptadas conforme a capacidade funcional, os riscos e os objetivos terapêuticos de cada paciente.
Da curiosidade por tecnologia à construção de um protocolo
A relação de Patrick com os jogos na fisioterapia começou antes do PLAYNEFRON. Durante a graduação, ele experimentou recursos como Nintendo Wii, Wii U, Xbox com Kinect e jogos controlados pela câmera do celular. Também teve contato com a programação de experiências voltadas a necessidades de reabilitação. Portanto, o interesse por tecnologias interativas não nasceu de uma tendência recente, mas de tentativas anteriores de explorar o movimento e a motivação como parte das atividades terapêuticas.
Quando decidiu levar essa experiência ao setor de hemodiálise, encontrou uma realidade clínica que exigia cuidado particular. Pacientes podem estar conectados a máquinas por fístula arteriovenosa ou cateter, e a movimentação precisa respeitar tanto o acesso vascular quanto a estabilidade clínica. Antes de qualquer jogo, o fisioterapeuta avalia condições como sintomas, intercorrências, nível de consciência e capacidade de seguir orientações. Não existe uma sessão de videogame padronizada para todos.
Em sua avaliação, o maior desafio foi tornar o PLAYNEFRON seguro, fundamentado cientificamente e institucionalizado. Ele estudou o funcionamento do serviço e conversou com as chefias da Terapia Renal Substitutiva, do Serviço Biopsicossocial, com a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e com a administração da instituição. O trabalho incluiu instruções de serviço, critérios de participação, protocolo de segurança e planejamento da aquisição dos equipamentos.
Patrick também buscou uma pós-graduação multiprofissional em Nefrologia, área em que a fisioterapia nem sempre recebe visibilidade equivalente à de outras especialidades. Segundo ele, foi o único fisioterapeuta de sua turma. A formação ajudou a aproximar a ideia tecnológica das exigências concretas da assistência renal.
Uma equipe inteira por trás da experiência
Embora seja o idealizador do PLAYNEFRON, Patrick faz questão de destacar a participação dos demais profissionais e dos pacientes. Sem aceitação da equipe, planejamento institucional e adesão de quem recebe o cuidado, a proposta não teria continuidade. Essa atuação multidisciplinar também aparece em um relato de experiência publicado em 2025 no Brazilian Journal of Nephrology, nos resumos do Congresso Paulista de Nefrologia.
O reconhecimento também saiu do ambiente hospitalar. Em agosto de 2026, o projeto conquistou o segundo lugar no 6º Prêmio Inova Servidor do Pará, conforme informação publicada pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional. A premiação valoriza a inovação na administração pública, embora não deva ser confundida com comprovação clínica definitiva de eficácia.
Quantos pacientes o projeto poderá alcançar?
Na entrevista, Patrick explica que as atividades estão concentradas no terceiro turno do Serviço de Terapia Renal Substitutiva. Esse turno recebe dois grupos em dias alternados, cada um com capacidade de 11 pessoas. Isso representa aproximadamente 22 pacientes em potencial no turno, e não 22 participantes já atendidos.
Se os três turnos forem contemplados no futuro, o potencial estimado sobe para cerca de 66 pessoas no serviço interno. O alcance poderá ser maior se a iniciativa avançar para pacientes internados, diálise peritoneal e outros espaços, como o Centro de Hemodiálise Monteiro Leite. Esses números representam possibilidades operacionais, condicionadas a equipamentos e pessoal capacitado: não são um balanço de atendimentos realizados.
Para expandir, o hospital ainda precisa concluir etapas institucionais de aquisição e licitação, além de preparar profissionais para o uso adequado dos recursos. Patrick já conversa com centros de Belém e São Paulo para compartilhar protocolos e experiências, mas informa que o PLAYNEFRON continua restrito à Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna. Não há confirmação de implantação regular em outra instituição.
Realidade virtual é um plano, não uma rotina implantada
As próximas etapas também podem incluir experiências mais imersivas. Patrick já realizou testes pontuais com VR Box e adquiriu um Meta Quest 3 para explorar novas possibilidades. Ele ressalta, porém, que o equipamento não faz parte da licitação institucional atual. Por isso, seria incorreto afirmar que a realidade virtual com esse headset já foi incorporada como prática habitual aos atendimentos.
Mais do que multiplicar dispositivos, ele pretende formar outros fisioterapeutas e estimular adaptações responsáveis da metodologia. O objetivo, segundo relata, não é pedir que hospitais copiem mecanicamente o PLAYNEFRON, mas que conheçam seus processos, discutam os resultados e desenvolvam soluções compatíveis com suas próprias realidades assistenciais.
Talvez esse seja o ponto mais importante da trajetória: a tecnologia é apenas uma parte do trabalho. O que sustenta a iniciativa são as escolhas clínicas, a escuta dos pacientes e a disposição da equipe para experimentar formas mais acolhedoras de cuidado. A história do PLAYNEFRON mostra que a inovação pode começar com um videogame, mas só se torna um projeto de saúde quando encontra método, responsabilidade e pessoas dispostas a construí-lo.
Fontes: entrevista exclusiva de Patrick Roberto Gomes Abdoral ao PatchNexo; resumo científico do PLAYNEFRON (2025); COFFITO (2026).
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Autoria editorial oficial do PatchNexo
Fundadora e Diretora Editorial do PatchNexo, gamer apaixonada por RPGs, MMORPGs e novas descobertas. Une sua experiência em comunicação digital, SEO e tecnologia ao jornalismo de games.

